segunda-feira, 24 de agosto de 2009

SONETOS, de Vinicius de Moraes

 
Soneto da Separação

De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.

De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama.

De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente.

Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.

***
 
Soneto de Fidelidade

De tudo, ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento.

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.

***
 
Soneto do Amor Total

Amo-te tanto meu amor... não cante
O humano coração com mais verdade...
Amo-te como amigo e como amante
Numa sempre diversa realidade.

Amo-te afim, de um calmo amor prestante
E te amo além, presente na saudade.
Amo-te, enfim, com grande liberdade
Dentro da eternidade e a cada instante.

Amo-te como um bicho, simplesmente
De um amor sem mistério e sem virtude
Com um desejo maciço e permanente.

E de te amar assim, muito e amiúde
É que um dia em teu corpo de repente
Hei de morrer de amar mais do que pude.
***
 
Vinicius de Moraes: O poeta, jornalista, teatrólogo e diplomata Vinicius de Moraes (1913-1980) formou-se em Direito e estudou Literatura Inglesa em Oxford (Inglaterra). Em 1935, ingressou na carreira diplomática, tendo servido nos Estados Unidos, Espanha, Uruguai e França. Seu primeiro livro de poemas, O caminho para a distância, foi publicado em 1933. Em 1954, iniciou-se como teatrólogo com a peça Orfeu da Conceição, depois adaptada para o cinema com o título de Orfeu do Carnaval. Trocou a carreira diplomática pela música popular.
 
Soneto: composição poética de 14 versos distribuídos em dois quartetos (estrofes de 4 versos) e dois tercetos (estrofes de 3 versos).
 
Após a leitura e comentários dos três sonetos, cada aluno deve fazer a sua releitura, podendo ser através de um novo texto, de uma poesia ou de um desenho. Confira nas próximas postagens, as releituras realizadas.
 
No link http://www.sonetos.com.br/biografia.php?a=25 encontram-se mais sonetos de Vinicius de Moraes.
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