sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Cada um escolhe o jeito de viajar

Aldo Colombo
Nunca saberemos quando termina nossa viagem. Importante é viajar com satisfação
Um ônibus levava todos os dias um grupo de pessoas para a cidade. Cada uma delas tinha um objetivo: trabalhar, estudar, fazer compras, visitar amigos. Cada uma delas tinha também um jeito de viajar.
Um senhor colocava um jornal sobre os joelhos e tentava completar o quadro de palavras cruzadas. No fim da viagem colocava o jornal na lata de lixo. Ao seu lado, alguém tentava dormir. Sua tentativa era atrapalhada por um senhor que falava mal de tudo e de todos, principalmente do governo. Com fone no ouvido, uma jovem escutava música, ao seu lado, um senhor consultava o relógio cada dois ou três minutos. Sentada no primeiro banco, uma senhora carregava um pequeno saco de papel e, de quando em quando, jogava alguma coisa pela janela.
Alguns dos passageiros achavam que a mulher era maluca ou coisa parecida. Um dia alguém resolveu perguntar o que ela estava fazendo. Com simplicidade, respondeu: espere a primavera e verá! E explicou: esta estrada é tão triste, tão vazia e por isso jogo sementes de flores. E quando, finalmente, a primavera chegou, as margens daquele caminho ficaram embelezadas de flores, de diferentes cores e perfumes. Apareciam manchas de violetas, gérberas, girassóis, lírios e de muitas outras flores, coloridas, felizes, acolhendo aves, abelhas e borboletas. E todos os passageiros contemplavam aquela maravilha, que tornava
a viagem prazerosa.
Nossa vida é uma viagem com um destino estabelecido. O jeito de viajar é escolha de cada um. Alguns dormem, outros criticam o caminho, alguns sentam nos primeiros bancos, imaginando chegar antes, outros acomodam-se nos últimos bancos, parecendo querer evitar o futuro. Uns cumprimentam os colegas, outros mostram-se irritados. Existe o costumeiro contador de velhas piadas e ao seu lado, silencioso, alguém pode estar rezando. Viaja também a simpática senhora que joga sementes de todo o tipo, na certeza de uma nesga acolhedora de terra.
É inevitável a colheita. Somos livres em escolher as sementes que semeamos, mas obrigados a colher aquilo que semeamos. Aquele que semeia flores, colherá flores; aquele que semeia espinhos, espinhos colherá, mas aquele que nada semeia, nada colherá.
Fazer felizes os que viajam ao nosso lado é um gesto de amor. A felicidade ou o mau humor dos outros nos contagiam. Na viagem da vida, uns descem, outros sobem. Nunca saberemos quando termina nossa viagem. Importante e viajar com satisfação, mesmo porque, no caminho da vida, só se passa uma vez. O que fazemos é definitivo e a ocasião perdida não se repete. O importante é que o caminho se torne mais bonito porque nós passamos por ali. Assim sendo, nossa viagem – leia-se vida – não terá sido inútil. E no fim da viagem aguardamos o abraço do Pai.

(Jornal Correio Riograndense, 15/02/2012.)

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